Economía

El New Herald | “Devo dizer que antes de conhecer a Juliane me apaixonava com muita frequência, mas nunca por um lugar”

E quatro anos depois daquela paixão, que surgiu logo na primeira visita de Christoph a Portugal sem ser para tocar, acontecia o Festival Internacional de Música de Marvão, que conta como diretores artísticos o casal alemão e teve a mais recente edição entre 22 e 31 de julho, com direito a visita de alto nível . “O presidente Marcelo Rebelo de Sousa veio cá este ano pela terceira vez. Na primeira vez veio com um grupo pequeno, na segunda trouxe mais de 30 embaixadores e este ano voltou a convidar todo o corpo diplomático para o concerto na Ammaia. E disse-me ter pena de não poder estar no último e maior dia do festival, mas tinha um casamento. Para o ano já reservou para o último dia e cá estaremos para o receber”, conta o maestro

Christoph Poppen cede-me com toda a simpatia de anfitrião o lugar com a melhor vista. Da ampla janela do restaurante da Pousada de Santa Maria de Marvão pode observar-se a beleza de uma paisagem alentejana que ao fim de poucos quilómetros já é paisagem extremenha, pois a fronteira com Espanha é logo ali, embora invisível. Mas a vista que mudou a vida do maestro alemão, e também a da vila, foi outra: em 2010, percorria de bicicleta, com um grupo de amigos e a família, a planície, quando elevou o olhar e se apercebeu do conjunto de casas rodeado por uma muralha situado no topo de uma montanha com 800 metros de altitude. “Devo dizer que antes de conhecer a minha mulher me apaixonava com muita frequência [risos], mas nunca me tinha apaixonado por um lugar. Isso aconteceu-me aqui pela primeira vez na vida. Cheguei e simplesmente apaixonei-me. Foi uma atração tão forte que me atingiu o coração, e esta pequena casa que comprámos é um símbolo disso. A perfeição do lugar exerceu sobre mim um magnetismo espiritual tão forte como nunca tinha experimentado em toda a minha vida. É difícil de descrever… Porquê? Não sei”, tenta explicar o maestro e violinista, sob o olhar divertido da mulher, a soprano Juliane Banse, testemunha desse dia.

E quatro anos depois daquela paixão, que surgiu logo na primeira visita de Christoph a Portugal sem ser para tocar, acontecia o Festival Internacional de Música de Marvão, que conta como diretores artísticos o casal alemão e teve a mais recente edição entre 22 e 31 de julho, com direito a visita de alto nível . “O presidente Marcelo Rebelo de Sousa veio cá este ano pela terceira vez. Na primeira vez veio com um grupo pequeno, na segunda trouxe mais de 30 embaixadores e este ano voltou a convidar todo o corpo diplomático para o concerto na Ammaia. E disse-me ter pena de não poder estar no último e maior dia do festival, mas tinha um casamento. Para o ano já reservou para o último dia e cá estaremos para o receber”, conta o maestro.

Devo fazer aqui um parêntesis para explicar que só não assisti ao concerto na Cidade Romana de Ammaia também porque coincidiu com dia de fecho meu no DN. Fui desafiado a vir até Marvão para os últimos dias do festival por um amigo jornalista, o americano Dennis Redmont, que vive agora em Portugal e é tão ligado ao país que até teve direito na recente série da RTP Três Mulheres a aparecer como personagem, com um jovem ator a interpretar o correspondente da AP que chegou a ser interrogado pela PIDE. E foi sabendo pelo Dennis que o maestro estava de regresso à Alemanha numa questão de dias que contactei com Daniel Boto, diretor executivo do festival, para marcarmos este brunch, na verdade um almoço, apesar de termos optado por partilhar petiscos, como peixinhos da horta e arroz de cogumelos. Também está a almoçar connosco Gelu Savonea, arquiteto que foi vice-diretor do Instituto Cultural Romeno em Lisboa, de curta visita a Portugal, que aceitou o meu desafio para transformar à última hora a nossa combinada ida a um restaurante de peixe grelhado em Setúbal por uma viagem até Marvão. Gelu e Christoph já se conheciam, pois noutros anos houve músicos romenos a participar no festival de música clássica.

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Subscrever Com Daniel a mandar vir para a mesa um tinto da região, Terrenus (Rui Reguinga, 2017), o maestro propõe um brinde e obriga-me a garantir que em 2023 não faltarei ao festival. Confesso que já vi imagens lindíssimas de concertos no Castelo de Marvão (Miguel Vaz, diretor na FLAD e ex-presidente do Círculo de Patronos do Festival, usou, e bem, o Facebook para mostrar aos amigos a maravilha que é ouvir Brahms ou Mozart no Alentejo), mas sinto especial fascínio pelas ruínas romanas de Ammaia, onde aconteceu o concerto de 30 de julho a que o presidente e os embaixadores assistiram. “Temos muitos locais diferentes para os espetáculos – durante o dia são principalmente no interior de igrejas pequenas; o sítio maior que temos em Marvão é o pátio do castelo, com 500 lugares, e o único local onde realmente podemos ter mais espectadores é na cidade romana de Ammaia, que é enorme e onde temos 1200 lugares, mas conseguimos ter mais 300 se necessário. Além disso, o espaço é tão grande que podemos construir um grande palco para uma grande orquestra. É o único espaço de todo o festival onde podemos fazer isso. Já fizemos várias coisas na Ammaia, porque tem uma atmosfera muito agradável. Pomos o piano nas escadarias romanas e o som tem uma boa amplificação. Há três anos tivemos a Carmina Burana, que foi uma produção de enorme sucesso, e, depois de dois anos de covid, em que não pudemos fazer nada, tivemos este ano a orquestra XXI, que tocou o concerto para violino e orquestra de Tchaikovsky que foi um enormíssimo sucesso”, afirma o maestro, de 66 anos, nascido em Münster, cidade que conheço e que é famosa por ter sido, a par da vizinha Osnabrück, palco dos tratados que puseram fim à Guerra dos 30 Anos, que opôs no século XVII católicos e protestantes. Além de celebrizada pela chamada Paz de Vestefália, Münster é também uma cidade de grande cultura, e foi a partir dela que Christoph construiu uma carreira de sucesso não só na Alemanha, mas também fora. Também Juliane, nascida no Sul da Alemanha mas tendo crescido em Zurique, tem uma sólida carreira internacional, inclusive com atuações em salas de ópera como o Met de Nova Iorque. Quando li sobre ela achei curioso que a sua estreia operática tenha sido como Pamina, na Flauta Mágica, de Mozart.

Christoph, já de malas feitas este ano, começou entretanto a preparar 2023: “O que fizemos este ano no Festival de Marvão já foi muito especial, com toda a programação de Brahms e com todos os outros concertos adicionais. No próximo ano vamos ter o foco nos cantores e teremos recitais com cantores internacionais da mais alta craveira. O compositor que atravessará os programas será Franz Schubert, não da forma como fizemos este ano com uma série completa de Brahms, mas Schubert estará em muitos programas diferentes, por isso merecerá o título de compositor central.”

O Festival de Marvão atrai uma maioria de público português, da região mas também de fora. Serão 60%. Os restantes são estrangeiros. “Nós temos uma audiência musical de classe muito elevada, para quem o importante é a música. Eles não vêm porque gostam muito de Marvão, mas porque querem mesmo ouvir boa música, e vêm porque conhecem o nível dos artistas que atuam aqui”, sublinha o maestro. Para logo acrescentar que nunca foi problema convencer artistas de topo a virem passar uns dias a Marvão: ” Juliane e eu tivemos sorte porque atuámos em todo o mundo com muitos artistas de alto nível dos quais nos tornámos amigos. Assim, não foi realmente tão difícil encontrar artistas amigos que confiassem na nossa visão e viessem. No primeiro ano foram maioritariamente artistas a solo, no segundo vieram mais e agora temos uma lista de espera. Depois de pouco tempo começámos a receber emails diários de agências de todo o lado a apresentarem os seus artistas.” E não é uma questão de dinheiro, ou pelo menos de pagar fortunas, como alguns festivais de grande tradição noutras partes da Europa farão. “O Festival de Marvão ainda não está numa posição de pagar muito a artistas que estão habituados a receber normalmente muito mais dinheiro. Uma vez em 30 ou 40 acontece a agência – não o artista – dizer que assim não podem vir, ao que nós respondemos que não há problema pois temos artistas suficientes”, conta, entre risos, Christoph.

E cada vez é mais fácil atrair visitantes a Marvão para 10 dias de música clássica de alta qualidade num cenário encantador. “Há milhões de fotografias nas redes sociais, toda a gente já viu e fala sobre isso, mas a atmosfera – e eu gosto desta descrição feita por um visitante – parece a de um navio de cruzeiro cósmico. O que é verdade, pois durante o festival há milhares de pessoas que parecem estar a bordo de um navio num mundo diferente, também há quem diga que são os dias do paraíso. Marvão está no livro 1000 lugares para conhecer antes de morrer, do New York Times , e com toda a justiça. Há toda uma perfeição na conjugação da arquitetura com a natureza e podemos olhar em volta que durante centenas de quilómetros não há nada parecido. Não encontramos nada semelhante na Europa, parece que não sofreu alterações durante milhares de anos”, diz o maestro, mostrando que aquela paixão de 2010 por Marvão não esmorece, apesar de admitir que de início, e sorri para a mulher, a compra logo da casa não foi fácil de aceitar: “Naquele momento fui só eu a escolher a casa. Os outros gostaram, falo dos dois rapazes nossos filhos, mas a Juliane demorou algum tempo a compreender, a seguir e, finalmente, a partilhar a paixão.” Juliane admite que sim, de repente porquê comprar uma casa em Portugal quando costumavam viajar tanto pelo mundo. Mas entretanto deixou-se conquistar e conta como a relação com Marvão, onde vêm todos os verões, se foi estreitando, ainda mais com o nascimento da filha, que conhece a vila desde que era bebé: “Na verdade, é muito querido, porque as pessoas locais veem-nos de ano para ano e comentam sobre como cresceram e se desenvolveram. Uma das coisas que foi muito agradável em Marvão ao longo dos anos foi podermos dar total liberdade às crianças aqui, eles andam sozinhos à vontade. Se encontram alguém nas ruas, elas conhecem, toda a gente as conhece, nunca se perderam nem tiveram nenhum problema e eu sempre as senti em total segurança aqui. Marvão para elas era um sentimento de liberdade que nunca lhes poderia ter dado na Alemanha e penso que isso também as atraía muito para cá, por se sentirem totalmente livres. Uma coisa muito engraçada foi que quando apareceu a covid, há dois anos, e ela tinha oito anos, a única coisa que a preocupava um bocadinho sobre a vinda para Portugal era aqui as pessoas estarem constantemente a dar-lhe beijinhos, o que os alemães não fazem [risos]. Estão sempre: beijinho, beijinho, beijinho [risos]. Aí ela disse: “Gosto da covid porque ninguém me dá beijinhos!” Agora que é mais velha até já gosta de ser beijada. Mas as crianças gostam mesmo de cá estar, são muito felizes aqui. Mesmo os rapazes mais velhos, com 21 e 19 anos agora, gostam de cá estar. Eles encontram sempre coisas para fazer.”

Christoph aproveita a deixa para falar de um momento na edição deste ano que se tornou especial para a família: “É preciso dizer que este festival foi o primeiro em que todos participaram de uma forma ou de outra. O mais velho já é músico profissional e tocou pela primeira vez com a Orquestra de Câmara de Colónia e na Orquestra do Festival e os outros dois cantaram no Coro do Festival, o que foi uma maneira muito boa de incluir toda a gente.”

Despedimo-nos e agradeço a Daniel ter organizado este almoço com o casal de músicos. E prometo voltar para ir ao restaurante que abriu há tempos aqui em Marvão, o Fago, que tem como chef José Diogo Branco, que um dia trocou a medicina pela gastronomia e ajuda com os seus petiscos a que esta vila alentejana tenha muitas razões para ser visitada mesmo nos 355 dias do ano em que não há festival de música clássica. Agora, tenho de aproveitar as duas horas e meia de viagem de regresso a Lisboa para pensar num bom título. Em 2015, Bernardo Mariano, então crítico musical do DN, contou a história de Christoph e sintetizou-a como “o alemão que se apaixonou por Marvão num passeio de bicicleta”.

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