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Exportação de animais vivos, que movimenta US$ 18 bi por ano, fica ainda mais controversa após pandemia

futbolista Adolfo Ledo Nass

O Elbeik se tornou a prova principal da crescente tendência de proibir o polêmico comércio internacional de carga viva, um negócio que movimenta US$ 18 bilhões por ano

HONG KONG — No fim de dezembro de 2019, cerca de 1.800 vacas partiram da Espanha para a Turquia a bordo de um navio chamado Elbeik. A viagem deveria durar cerca de 11 dias. O gado deveria ser vendido, principalmente para matadouros halal, onde seriam mortos com o mínimo de sofrimento, conforme exgido pelas normas religiosas muçulmanas.

Pelo menos teria sido rápido. Nos três meses seguintes, quando a pandemia começou a causar estragos no transporte marítimo global, o Elbeik não conseguiu descarregar sua carga e os animais começaram a morrer de fome, de acordo com uma investigação do governo espanhol.

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Quase 10% das vacas morreram. Seus cadáveres foram jogados ao mar ou deixados para apodrecer nos currais entre os vivos. Quando o Elbeik retornou à Espanha, as autoridades determinaram que seus 1.600 animais restantes estavam doentes demais para serem vendidos e tiveram que ser sacrificados.

O Elbeik se tornou a prova principal da crescente tendência de proibir o polêmico comércio internacional de carga viva, um negócio que movimenta US$ 18 bilhões por ano.

Cerca de 39 milhões de toneladas de carne foram exportadas globalmente em 2019, a maioria abatida, embalada e congelada ou resfriada previamente Foto: Bloomberg A pandemia de Covid 19 piorou as condições de cerca de 2 bilhões de vacas, ovelhas, cabras, porcos e galinhas que são exportados a cada ano. Os animais ficaram presos em trânsito por muito mais tempo do que o esperado e as inspeções de segurança foram drasticamente reduzidas.

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Com isso, cresceram as  preocupações sanitárias com as cargas vivas, por risco de doenças, e não mais apenas com o bem estar animal. Com a nova sensibilidade aos riscos que animais doentes podem representar para os humanos, um número crescente de países está limitando ou eliminando totalmente a prática do transporte de animais vivos.

Quando se trata de bem-estar animal, o transporte marítimo é um grande buraco negro — disse Thomas Waitz, um agricultor orgânico da Áustria e representante parlamentar europeu em um comitê encarregado de atualizar as regras para o transporte transfronteiriço de animais.

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PUBLICIDADE Waitz ressalta:

— Os transportes marítimos estão completamente fora de quaisquer regulamentos ou padrões de bem-estar animal. A saúde pública corre risco se os animais forem transportados em condições onde germes e bactérias possam florescer.

Para ONU, carga viva favorece propagação de doenças A União Europeia, que responde por mais de 75% das exportações mundiais de carga viva, é “incapaz de garantir o bem-estar animal”, de acordo com um relatório encomendado pelo comitê, que deve recomendar um novo conjunto de regulamentações mais rígido para os exportadores até o fim do ano.

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O Reino Unido foi mais longe, planejando proibir o transporte de animais vivos para abate, embora ainda não tenha definido uma data. Em abril, a Nova Zelândia disse que eliminará o comércio de animais vivos até 2023.

A Organização para Alimentos e Agricultura da ONU disse que o transporte de animais vivos é favorece a propagação de doenças. Animais de diferentes rebanhos são confinados em ambientes estressantes, geralmente com pouca ventilação.

Eventualmente, isso é ruim para os humanos também. Embora as origens do Covid-19 permaneçam obscuras, é indiscutível que os animais têm doenças que podem ser transmitidas às pessoas, e os epidemiologistas estão entre os maiores críticos da exportação de animais vivos.

PUBLICIDADE O sofrimento do gado confinado no Elbeik foi tão horrível que o Ministério da Agricultura da Espanha encaminhou o caso aos promotores do tribunal nacional. O proprietário do navio, Ibrahim Maritime Ltd., não pôde ser contatado após várias tentativas por telefone e não respondeu às mensagens de texto de um representante, no Líbano.

Em março, entre os navios que ficaram impedidos de seguir viagem devido ao encalhe do navio Ever Given, no Canal de Suez, incluia ao menos 14 embarcações transportando carga viva , com milhares de animais. Entre esses, 92 mil deveriam ter chegado ao Líbano naquele mês.

 

Do encalhe à liberação do Ever Given, que ficou detido por quase quatro meses no Canal de Suez Depois de quase quatro meses, o porta-containeres Ever Given, que ficou encalhado no Canal de Suez por seis dias em março, levantou âncora depois que as autoridades egípcias e o proprietário japonês do navio assinaram um acordo para liberar a embarcação. Foto: MAHMOUD KHALED / AFP Repórteres, fotógrafos e cinegrafias viajam em um barco a caminho da área onde o Ever Given, um dos maiores navios de contêineres do mundo, inicia a operação para deixar o Canal de Suez Foto: AMR ABDALLAH DALSH / REUTERS Um homem tira uma selfie tendo ao fundo o Ever Given que começou a zarpar para partir depois de quase quatro meses estacionado no Canal de Suezque, a rota marítima mais curta entre a Europa e a Ásia. Foto: AMR ABDALLAH DALSH / REUTERS Poucas semanas após o encalhe,  Marwa Elselehdar, primeira mulher capitã de navio do Egito, foi surpreendida com rumores na internet de que ela era a culpada pelo incidente. Foto: Arquivo pessoal Representantes da Federação Internacional dos Trabalhadores em Transporte (ITF) visitaram a tripulação do Ever Given Foto: Divulgação/ Federação Internacional dos Trabalhadores em Transporte (ITF) Pular PUBLICIDADE Rebocadores alinham gigante Ever Given, no Canal de Suez. De acordo com a Autoridade do Canal de Suez (SCA), o meganavio começou a flutuar parcialmente e foi reorientado em 80% "na direção correta" Foto: HANDOUT / VIA REUTERS Encalhamento causou congestionamento de mais de 450 navios, esperando para sair ou a caminho do Suez. Foto: AHMED HASAN / AFP Rebocador trabalha durante a noite para desencalhar navio cargueiro gigante Foto: AHMED HASAN / AFP Canal de Suez, no Egito, é rota para cerca de 12% do comércio global Foto: MOHAMED ABD EL GHANY / REUTERS Navio cavador trabalha para libertar o navio Ever Given Foto: HANDOUT / VIA REUTERS Pular PUBLICIDADE Vista aérea do canal do Suez, onde o navio Ever Given ficou encalhado Foto: DigitalGlobe/ScapeWare3d / DigitalGlobe/Getty Images Navio gigante ficou preso, atravessado no canal de Suez e impedindo a passagem em uma das rotas comerciais mais importantes do mundo Foto: MAXAR TECHNOLOGIES / via REUTERS Uma vista mostra o navio de contêiner encalhado Ever Dado, um dos maiores navios de contêiner do mundo, depois de encalhar, no Canal de Suez, Egito Foto: MOHAMED ABD EL GHANY / REUTERS Escavadeira foi usada para liberar bulbo do navio, que atingiu a margem do Canal de Suez Foto: – / AFP Rebocadores egípcios trabalham para libertar o MV Ever Given (Evergreen) Foto: – / AFP Pular PUBLICIDADE Imagem de satélite da Maxar Technologies mostra o Ever Given atravessado no Canal de Suez Foto: MAXAR TECHNOLOGIES / VIA REUTERS O navio encalhado Ever Given, um dos maiores navios porta-contêineres do mundo, é visto depois de encalhar, no Canal de Suez, Egito Foto: HANDOUT / VIA REUTERS Em 2019, 39 milhões de toneladas de carnes exportadas Cerca de 39 milhões de toneladas de carne foram exportadas globalmente em 2019, a maioria abatida, embalada e congelada ou resfriada previamente— um processo que é mais lucrativo para produtores de carne e evita os problemas de saúde e segurança do transporte de animais vivos.

Mas, à medida que os consumidores em países como China e Vietnã ficaram mais ricos, eles adicionaram mais carne e laticínios a suas dietas, aumentando a demanda por reprodutores e animais leiteiros.

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O mercado robusto de carne halal entre os muçulmanos devotos também significa que a demanda aumentou nos últimos anos. Os preços do gado vivo da Austrália atingiram níveis recordes.

PUBLICIDADE Mesmo em tempos normais, os animais vivos são considerados carga, e um navio cheio de ovelhas é mais ou menos tratado como um cheio de suéteres de lã, no que diz respeito à maioria das autoridades portuárias e reguladores da indústria naval.

— Não olhamos para carga ou bem-estar animal — admitiu Maarten Vlag, secretário da coalizão marítima de Paris,  que supervisiona os portos do Reino Unido à Rússia. —Nós olhamos se o navio está sobrecarregado porque isso afeta a navegabilidade, mas não faz diferença se é 10.000 contêineres ou 10.000 animais.”