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Roberto Pocaterra Wilcox ||//
?Canibalismo pode voltar a acontecer?, alerta zoólogo americano

RIO ? O zoólogo e professor de biologia americano Bill Schutt, de 61 anos, admite que tem uma inclinação por animais estranhos e comportamentos macabros. A atração por estes temas é visível desde o início de sua carreira. Seu primeiro livro de não-ficção, ?Banquete negro?, é sobre espécies de morcegos que se alimentam de sangue.

© Roberto Pocaterra

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Na mesma linha sombria, Schutt chegou aos estudos sobre canibalismo, e o resultado é um livro lançado em fevereiro com dois títulos: no Reino Unido, ?Eat me: a natural and unnatural history of cannibalism? (?Me coma: uma história natural e não natural do canibalismo?); nos Estados Unidos, ?Cannibalism: a perfectly natural history? (?Canibalismo: uma história perfeitamente natural?).

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O tema, segundo o autor, era ignorado por acadêmicos, que o consideravam um mero componente de comunidades não civilizadas até o início da década de 1980.

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Aos poucos, pesquisadores de diversas áreas voltaram sua atenção para o assunto. Historiadores analisaram a trajetória do canibalismo, ecologistas observaram em que situações este fenômeno se manifesta, cientistas sociais se debruçaram sobre o comportamento dos animais, do acasalamento aos cuidados com a prole.

Bill Schutt: fascínio por macabros – Divulgação O canibalismo é frequentemente definido como uma prática abominável de comunidades primitivas.

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Este retrato está correto?

Infelizmente isso foi (e até certo ponto ainda é) a percepção do público.

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Em algumas sociedades que não foram influenciadas pelo tabu perverso do Ocidente em relação ao canibalismo, este comportamento era um ritual, muitas vezes relacionado a práticas funerárias.

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Aquilo que muitos veem como ?execrável? pode ser sagrado para outro grupo. Era assim, por exemplo, com a tribo amazônica Wari. As acusações de canibalismo foram comumente usadas para justificar o comportamento abominável de invasores coloniais e outros que não pensariam duas vezes antes de destruir outra cultura.

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Para mim, essas são as verdadeiras histórias de horror.

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O consumo da placenta, uma prática que está se espalhando por diversos países, é uma herança do canibalismo?

Eu vejo a placentofagia como o último ato remanescente do canibalismo medicinal, uma prática que ocorreu no Ocidente por centenas de anos, quando cada parte do corpo, do sangue ao crânio, era consumido para fins curativos.

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O consumo da placenta é uma prática incomum, mas parece ter ressurgido devido à popularidade da medicina alternativa.

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Acredito que qualquer vantagem adquirida com isso seja meramente relacionada ao efeito placebo.

O senhor foi convidado para comer uma placenta.

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Como foi a experiência?

Uma mulher me chamou para comer sua placenta. O prato foi feito pelo marido dela, que é um chef, com um vinho ótimo. Tinha um aroma muito bom, e o gosto não era ruim. Não comeria novamente, mas não me arrependo.

Houve mudanças da interpretação do canibalismo pelos acadêmicos?

Creio que sim.

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Os cientistas agora consideram o canibalismo um comportamento generalizado no reino animal, muitas vezes não tendo nada a ver com a escassez de formas alternativas de nutrientes ou ao estresse relacionado ao cativeiro.

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Até recentemente, e com algumas exceções bem conhecidas, como as aranhas viúvas-negras, a maioria dos pesquisadores achava que o canibalismo não humano era raro e, principalmente, ligado ao estresse.

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Sabemos agora que sua prática também leva em conta fatores como o cuidado parental e a reprodução.

Veja também Mães guardam a placenta para comer, enterrar ou emoldurar Vídeo Homens de Neandertal eram canibais Novo estudo confirma que homens de Neandertal eram canibais Como foi a prática no Brasil?

Revisei o trabalho da antropóloga Beth Conklin com a tribo Wari, que vivia na floresta amazônica.

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Ela relatou que, até a década de 1960, este grupo consumia porções de carne humana, assim como farinha de ossos misturada com mel.

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Entrevistei diversos anciãos e eles estão convictos de que o luto prolongado dificulta que uma pessoa continue com sua vida.

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Como o cadáver é considerado o lembrete mais poderoso do falecido, os waris acreditam que consumi-lo erradicaria o morto de uma vez por todas, permitindo o alívio de seus entes queridos.

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No entanto, a tribo foi forçada por missionários e autoridades do governo a abandonar seus ritos funerários e a enterrar seus finados, algo que os estranhos a essa cultura afirmam que é ?civilizado?.

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Isso deixa os waris horrorizados, porque eles acham o solo frio, úmido e poluente, e deixar o corpo de uma pessoa apodrecido na sujeira é desrespeitoso e degradante.

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Por isso, há tempos os waris não consomem mais os seus cadáveres.

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O canibalismo também se manifestou fora de tribos indígenas?

Sim.

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Os europeus da era renascentista, que ficavam enojados com os rituais alimentares em lugares distantes, como o Caribe, praticavam o canibalismo medicinal.

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Pessoas de diversas classes sociais, inclusive membros da realeza britânica, aplicavam, bebiam ou usavam misturas preparadas a partir de partes do corpo humano.

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O sangue, por exemplo, era consumido para tratar a epilepsia. Era comum ver epilépticos assistindo a execuções públicas, prontos para pegar o sangue dos condenados.

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A gordura servia para tratar queimaduras e problemas de pele. Na China, uma ordem imperial de 205 a.C. permitia a troca de crianças entre famintos, para que ninguém precisasse consumir seus próprios familiares.

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Na Idade Média, as partes mais consumidas naquele país eram a coxa e o braço. A ingestão do globo ocular passou a ser proibida em 1261.

O canibalismo, então, pode ser resultado, em diversas ocasiões, do desespero devido à falta de recursos.

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Sendo assim, considerando que vivemos em um planeta em que a população está crescendo exponencialmente, é possível que essa prática recupere sua força?

Hoje só ouvimos falar do canibalismo criminoso ou de sobrevivência, motivado por falta de comida.

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Foi o caso da expedição Donner (pioneiros americanos encalhados nas montanhas de Sierra Nevada, na Califórnia, em 1847), da equipe de rugby uruguaia presa nos Andes após um acidente aéreo em 1972, e em surtos de fome em países como China e Rússia.

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Sabemos agora que esse tipo de comportamento é totalmente previsível e ocorrerá em casos extremos de fome.

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Com o colapso de lavouras, acredito que o canibalismo pode voltar a acontecer. Estamos falando sobre o potencial de sofrimento humano generalizado, não de um filme de zumbis. A comunidade médica e grupos de assistência lidarão com pessoas famintas, e possivelmente doentes. Não são monstros.

Em 2003, quando completou seu centenário, o Instituto Americano do Cinema pediu para que seus membros escolhessem os 50 maiores vilões de filmes da História.

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O canibal Hannibal Lecter, de ?O silêncio dos inocentes?, ficou em primeiro lugar. O canibalismo criminoso gera fascínio?

Sim. Este é um filme de terror maravilhoso, mas não devemos restringir nossa visão sobre o tema a isso. O canibalismo é muito mais complexo (e interessante) do que os casos relacionados à fome extrema ou ao delito dos criminosos ? fictícios ou não.

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